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Grafite
e Comunicação
Luciano Spinelli
O texto abaixo é parte integrante
de uma pesquisa sobre o grafite e suas formas alternativas
de comunicação e expressão visual
em alguns territórios das cidades de Porto Alegre
e Paris. Ela focaliza o estilo de vida e a visão
de mundo de uma rede social de grafiteiros, analisando
as formas como eles se apropriam de certos espaços
público. Observa-se a relevância do grafite,
suas motivações expressivas, e quais
propostas estéticas este contempla. Para responder
a estas questões adota-se a investigação
de alguns grafiteiros no seu viver urbano, com suas intencionalidades
expostas através da grafitagem e nas possibilidades
comunicativas que empregam frente à subjetividade
do morador da cidade. A crença de que o grafite
se traduz como parte do fenômeno de poluição
visual que afeta as grandes metrópoles é afastada
por esta pesquisa, que aponta para uma inclusão
do grafite na complexa linguagem urbana pós-moderna.
Ele integra as formas contemporâneas de comunicação
social, sendo herdeiro legítimo de uma cultura
visual de massa, passível de leitura e de compreensão
subjetiva para quem o observa, interpreta e lhe atribui
significado.
Nas paginas seguintes, grafite é pensado
como forma de comunicação ao possibilitar
a interação do grafiteiro: com a estética
de uma cidade ventríloqua; com sua tribo urbana
(Maffesoli 1998) e com os habitantes. Nesse sentido,
a intervenção visual, seja através
de um desenho, de uma palavra ou de uma sigla, representa
um signo em diálogo com o entorno que cerca a
inscrição na parede. No caso de um desenho,
sua significação é dada de forma
subjetiva pela sociedade em geral. Já na tribo
que faz a grafitagem, ele recebe, além da significação
artística, a personificação de uma
pessoa ou grupo que passou por ali.
Na leitura de uma comunicação
urbana estão em jogo subjetividades de quem se
interessa por ela, relativas a fatores assim enumerados
por Massimo Canevacci:
Na decodificação da mensagem
existe sempre um lado criativo, um critério subjetivo.
Ela é interpretada segundo a formação
particular do pesquisador, sua biografia intelectual
e política, seus gostos e emoções,
ou segundo o acaso. A tradução da mensagem
urbana é sempre uma traição (CANEVACCI,
1993:37).
Em se tratando de uma palavra ou sigla,
a escritura na parede em geral não é decifrada
pela população de forma plena, porque são
usadas fontes tipográficas próprias a cada
grupo em uma estilização das letras do
abecedário. Essas fontes marcam a identidade de
quem escreve, sendo que cada grafiteiro e pichador tem
sua própria tag, assinatura que pode
ser complementada por desenhos ou siglas. Em geral, os
grafiteiros firmam suas obras com a tag e os
pichadores fazem da tag sua obra, que é complementada
com referências à crew e/ou ao
bairro de residência. Na rede que atua na pintura
urbana e tem por hábito a leitura do que é expresso
nas paredes, os signos inscritos têm outra significação.
Ao observar um grafite, é comum encontrar
a quem a obra foi dedicada, a tag da pessoa que a fez,
o nome do crew a que essa pessoa( está ligada,
a região da cidade em que vive, além do
que está expresso no desenho ou na palavra grafitada.
Quando se trata de um piche, as mesmas informações
são encontráveis, com a diferença
de que desenho é substituído pelo nome
do grupo ao qual pertence o pichador. Não está na
forma como a palavra foi escrita, mas, sim, na intencionalidade,
uma diferença entre os grupos que atuam na pintura
da cidade. Pode-se ter um piche no estilo grapicho,
com o uso de duas ou mais cores e dimensões, bem
como um grafite com essas mesmas características.
Eles diferem na intencionalidade de quem confecciona
a obra, se tem como intuito a sabotagem ou a estetização,
se, por exemplo, a parede foi liberada para esse fim
ou se a marquise foi escalada durante a madrugada.
As expressões comunicativas do grafite
se relacionam com muitas dimensões sociais, em
instâncias culturais também ecléticas,
o que marca uma diversidade interpretativa. Em um estudo
com grafiteiros na Cidade do México, Tania Cruz
considera o grafite como uma forma de comunicação,
com a seguinte justificativa:
É uma forma de comunicação
porque mediante uma gíria e símbolos
lingüísticos específicos permite
interagir socialmente com: 1) o espaço urbano;
2) a comunidade de grafiteiros; 3) a comunidade em
geral (CRUZ, 2004:198).
Espaço Urbano
O grafite, por ser feito sobre um suporte
urbano repleto de signos da comunicação
de massa, está em inevitável diálogo
com todos esses signos e com o entorno. São cartazes,
placas de trânsito, placas de pedestre, adesivos,
painéis luminosos, outdoors, bus-doors,
e uma infinidade de dizeres e imagens que surgem freneticamente
no percorrer uma grande avenida em Porto Alegre ou Paris.
O que alguns consideram “poluição
visual”pode ser visto como uma grande diversidade
de signos lingüísticos em uma subliminar
comunicação do espaço urbano - uma "cidade
polifônica", diria Canevacci.
A cidade polifônica significa
que a cidade em geral e a comunicação urbana
em particular comparam-se a um coro que canta com uma
multiplicidade de outras vozes, que isolam-se ou se contrastam
(CANEVACCI, 1993:17).
O grafite constitui uma dessas vozes e,
por isso, deve ser cartografado na estética urbana
para que o diálogo com o entorno seja audível.
Se inserido em uma galeria de arte, o grafite é mutilado
em seu poder de comunicação quando limitado
a conter toda sua significação em si mesmo.
Na situação urbana esse deslocamento é impensável
e irreal, pois, quando a paisagem urbana cede espaço
a essa intervenção visual, há uma
simbiose de signos que geram um todo reinterpretável.
Pensando em uma foto, um plano fechado de
um grafite não é fidedigno ao seu poder
de comunicação. Esse grafite deve ser lido
e entendido como um detalhe de um todo que é a
paisagem citadina, em que:
O detalhe é aproximado por meio de
uma precedente aproximação ao seu inteiro;
percebe-se a forma do detalhe até que esta fique
em relação perceptível com o seu
inteiro (CALABRESE, 1987:86).
Observando o grafite como um "detalhe
da paisagem urbana", sua leitura é condicionada
ao seu entorno, uma vez que esse grafite está impregnado
em uma parede, em uma rua, em um bairro, em uma cidade.
Deslocar física e temporalmente esse objeto fragmenta
sua relação com o todo no qual foi concebido,
minando a sua significação. O desenho grafitado
só se torna um grafite quando em relação
com a cidade.
Tribo de grafiteiros
Ser capaz de ler a fonte tipográfica é requisito
para tentar desvendar o que se escreve em um grafite
ou piche, mas não é o único requisito.
Entender as abreviaturas pode ser uma tarefa impossível
se o leitor não está inserido na rede de
grafiteiros, uma vez que elas são mensagens codificadas,
coligadas simultaneamente a outras informações
em um grafite. O emissor da mensagem visual pensa no
diálogo simultâneo com a sociedade em geral
e com os que dominam o seu código lingüístico.
No piche, isso garante o anonimato frente à polícia
e à sociedade, ao mesmo tempo em que possibilita
o diálogo com sua rede social. Trata-se de uma "identidade
clandestina" (Cruz 2004:199) forjada pelo pichador
na tribo que reconhece a assinatura e a significa. Essa
forma de comunicação em instâncias
diferenciadas passa pela articulação simultânea
de dois códigos. Um escrito por extenso, o outro
plástico e visual. O primeiro comunica objetivamente,
o segundo subjetivamente. Quanto à decodificação
de uma mensagem, Umberto Eco, entende que o:
Elemento fundamental dessa cadeia é a
existência de um Código, comum tanto à Fonte
quanto ao Destinatário. Um Código é um
sistema de possibilidades prefixadas e só com
base no código estamos aptos a determinar se os
elementos da mensagem são intencionais (desejados
pela Fonte) ou conseqüência do Ruído
(ECO, 1984:169).
O código visual que dominam os grafiteiros é mais
completo para entender um grafite em relação
ao da sociedade. Assim, as instâncias comunicativas
que circundam a mensagem plástica são decodificadas
de forma diferente por eles, em um processo efetivo de
comunicação entre emissor e receptor. Essas "informações
complementares", descritas mais adiante, são
relevantes para quem observa a obra a partir do código
da tribo que grafita, e em geral, passam despercebidas
pela sociedade que também vê o grafite,
mas o entende de forma diferente.
Moradores da cidade
O grafite comunica-se com a sociedade que
habita a cidade, por vezes de forma subliminar, ao participar
da paisagem urbana. O viver a cidade passa por sua estética
marcada por conotações subjetivas, em um
diálogo íntimo e individual entre o sujeito
e o meio pelo qual é circundado. O grafite, percebido
como um signo da cidade, exposto a todos de forma autoritária
por surgir unicamente pela vontade de quem o produz,
se insere no processo de diálogo com o "urbanóide",
dialogo este que se estabelece de duas maneiras: a primeira,
ao constituir uma mensagem legível, proposta por
alguém, e compreendida em sua totalidade pelo
receptor; a segunda, ao caracterizar antes a existência
de seu proponente, a marca do autor ali presente, visível,
mesmo que ilegível.
Essa leitura é dotada de um nível
variável de ruído, através do qual
a mensagem é munida de uma relação
intersubjetiva com seu leitor. Para a rede que grafita,
a leitura é feita diferentemente do que para o
desavisado morador apressado, possibilitando as diversas
e esperadas compreensões de um produto visual.
O certo é que existe o estabelecimento de uma "cadeia
comunicativa" entre o grafite, o grafiteiro, o morador
da cidade e o entorno.
A cadeia comunicativa pressupõe uma
Fonte (ou Emissor) que, por meio de um Transmissor, emite
um Sinal através de um Canal. O Sinal, através
de um Receptor, é transformado em Mensagem para
uso do Destinatário. Essa cadeia normal de comunicação
prevê obviamente a presença de um Ruído
ao longo do Canal (ECO, 1984:168).
O nível de ruído é pensado
pelo grafiteiro. Inserir desenhos caracteriza uma significação
plástica acessível a qualquer um que aprecie
a obra. A tag, assinatura do autor, semelhante à rubrica
do pintor em um quadro, é de importância
vital para perpetuar sua recorrência. Delicadamente
escondida, ela está sempre presente. Se bem que,
por vezes, o que está grafitado é a própria
assinatura, que, com o universo de cores, níveis
dimensionais, afrescos e desenhos mantém um diálogo
subjetivo, através do artístico, com a
população. As dedicatórias e referências
ao bairro aparecem como informações codificadas
por abreviaturas em uma grafia cursiva. Por assim dizer,
o grafite como obra, apresenta uma diversidade de possibilidades
compreensivas que dependem de referenciais próprios
da cultura de cada pessoa que se dispõe a observá-lo.
No que tange ao entorno, à rua da
cidade, o grafite se agrega em um entrelaçamento
de re-significação. Ele deixa de ser obra
em si mesmo, até porque não é pensado
para isso, e funde-se nos níveis significativos
da paisagem urbana. O ruído agora não está mais
nas diferentes linguagens, e, sim, nas folhas da árvore
que se debruçam sobre a parede, nos fungos que
absorveram a tinta perto do chão, no cartaz colado
sobre o muro grafitado, nas ranhuras da porta que foi
incorporada ao desenho. O próprio movimento do
passante, que vê o grafite de forma rápida,
já acusa uma leitura do que salta aos olhos. O
ritmo da cidade, o semáforo, a parada de ônibus,
são formas de regrar tempos diferentes de exposição
do morador frente a paisagem em que se insere o grafite.
E não é de se esperar que ele esteja especialmente
atento, que venha a caçar e decifrar mensagens
oferecidas pela paisagem urbana.
Quando se trata de entender uma pichação,
o uso de um código lingüístico secreto,
que não é compartilhado pela população
em geral devido a sua grafia, torna praticamente impossível
ler os nomes e siglas expostos nas paredes da cidade.
Excluindo grafiteiros, pichadores e curiosos em geral
pela escrita urbana, a leitura compreensiva desses signos
passa despercebida, sendo eles vistos, mas não
entendidos. É de se pensar que a sua significação
para a população não seja desejada
por parte do proponente da obra, sendo esta importante
apenas para a tribo que grafita e confere valor a tal
ousadia.
No piche é feita a marca registrada
de alguém, a tag, a representação
de si mesmo. Nele,
O que o escritor anônimo quer comunicar
não são palavras, mas, sim, a sua presença
fantasmática, que pode atingir o alvo quando e
onde queira, nas cornijas mais altas, nos edifícios
mais elegantes, nas perspectivas mais vertiginosas. Porque
o sentido do discurso consiste tão-somente em
atestar a existência anônima, a abstrata
presença das pichações árabe-góticas
(CANEVACCI 1993:183).
Antes de comunicar uma mensagem, a exposição
da intervenção visual caracteriza seu autor,
não importa com que técnica visual. É a
marca de uma pessoa, de um grupo, da existência
de alguém, de muitos desconhecidos que são
vistos por toda a cidade. O fato de já serem vistos é suficiente
para que continuem as exposições de suas
marcas na apropriação do ambiente em que
vivem.
Esse ensaio não pretende ser conclusivo,
e sim, integrante de um processo compreensivo desse complexo
objeto de estudo. Grafite e grafiteiros são inevitavelmente,
proposições generalistas, através
das quais foram abarcadas nuances muito diversas da expressão
visual dos moradores nas paredes da cidade. Quanto ao
grafite como forma de comunicação visual,
reitero uma frase escrita páginas acima. "O
desenho grafitado só se torna um grafite quando
em relação com a cidade", esse quesito
indispensável ao ato da grafitagem, pode ser considerado
o fator de coesão na tribo estudada, único
e indispensável. Público, o grafite é da
rua. O ser visto nas paredes da cidade, insere a tag, a
marca, a pessoa, no imaginário de quem lê estas
expressões urbanas.
Referências:
CALABRESE, Omar. 1987. A Idade Neobarroca.
Lisboa: Edições 70.
CANEVACCI, Massimo. 1993. A Cidade Polifônica.
São Paulo: Livros Studio Nobel Ltda.
_______ . 2001. Antropologia da Comunicação
Visual. Rio de Janeiro: DP&A.
CRUZ, Tania Salazar: 2004. "Grafiteros:
Arte Callejero en la Ciudad de México". In: Desacatos
Revista de Antropología Social. n. 14, pp.
197-226.
ECO, Umberto. 1984. Viagem na Irrealidade
Cotidiana. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.
MAFFESOLI, Michel. 1998. O Tempo das
Tribos. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária.
Sobre o autor
Luciano
Spinelli é mestrando em sociologia na
universidade de Paris V
Sorbonne. Desenvolve pesquisa sobre graffitis, comunicação
visual e
pós-modernidade sob a orientação
de Michel Maffesoli. Integra o grupo
de sociologia visual GRIS "Groupe de Recherche sur
l'Image en
Sociologie" do CEAQ. Realizou os documentários
Dano 163 e Índios no
Meio Urbano. Expôs fotografias na Galeria dos Arcos
da Usina do
Gasômetro e no Pinacoteca Café em Porto
Alegre. É formado em
Jornalismo (PUC-RS) e Ciências Sociais (UFRGS).
Gosta de Morphine,
Vive la Fête e Joy Division. Lê Hakim Bey.
Fotos: Luciano Spinelli
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